mudança, esperança, uma criança


   Eu sinto a nuvem com gotículas de mudança chegarem. Gotinhas pequeninas, tímidas, mas molhadas e gélidas. Elas estão formando uma pequena poça lá no fundo do meu eu, do meu cérebro e da minha mente teimosa. Talvez, talvez, eu estivesse perdida em certezas por todo esse tempo. Talvez eu só tivesse certeza do que queria, mas não do que seria necessário. Do que me faria ser mais necessária, mais útil. Do quê arrancaria o melhor de mim, deixando as partes podres inertes num canto escuro.
   Infância toda eu fui atenta ao caos que é esse mundo; sendo nos jornais ou na televisão, o absurdo tirava a criancinha madura do sério e a fazia sair berrado aos quatro cantos de casa. Uma criança que tinha um sonho: ajudar pessoas. Ajudar aqueles que mais precisariam de ajuda e que mais dificilmente a encontrariam, os oprimidos pela sociedade ainda moldada em tempos medievais. Era uma criança apenas, mas já sabia que as coisas não andavam bem das pernas.
   Não sei se posso ou não estar enganada. Não sei se na minha cabeça de fantasias tudo faça mais sentido. Pessoas “imaginativas” tendem a não saber o limite do real e do fantástico - disse o querido Stephen King. A incerteza e a confusão de ideias são minhas colegas de berço, estou aprendendo com o tempo a entendê-las.
   
   E a me entender, eventualmente. Coisa mais complicada que já provei; ora tudo parece bastante claro e certo, ora todas as certezas ruem em farelos de dúvidas. Ah, dúvidas… tiram o sono, tiram a vida, tiram a paz. E o pânico toma conta de mais um corpo vulnerável pelas incertezas do futuro possível, das páginas ainda em branco, das ânsias em desejar saber o próximo capítulo, os próximos anos… Enquanto o corpo entra em estados de choque e ataque. Coisa incrível é o mundo da psique.
   
   Acho que este é um dos anos, senão o ano, mais importante que já tive. Não por quê eu tenha estudado e trabalhado mais do que os outros, longe disso; provavelmente o primeiro em que os estudos não são o objetivo principal, mas, mesmo assim, o ano em que mais aprendi. E venho aprendendo. Coisas sobre o mundo, coisas sobre o futuro, coisas sobre o passado e o presente, coisas que fizeram a massa cerebral que sou hoje. Uma mente cheia de perguntas, milhares delas, que precisam de respostas e as procuram incessantemente. Difícil de entender que para a maior dessas perguntas eu ainda não tenha achado uma solução. Talvez, puro medo de decidir. Mas, creio eu, que em breve as coisas se resolverão e no final, nem tantos amores terão de ser abandonados ao relento. Por que eu sei que o meu maior amor sempre estará junto à mim, independente do que me reserve o inesperado, bem aqui, nas pontas dos meus dedos e nas linhas débeis da minha mente.

   Tudo o que sei é da certeza de um talvez. O que pra mim, já é grandes passos dados.


"Quando uma pessoa imaginativa entra em dificuldades mentais, a linha entre ser e parecer dá um jeito de sumir." 
- Michael Noonan, de Saco de Ossos (Stephen King)

 

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