Percebeu que à sua frente, em cima da mesinha de centro, havia um
copo de vinho da noite passada, daquela noite que fora linda e horrorosa;
talvez ainda possuísse o gosto da boca dele, talvez ainda pudesse tocá-lo e
sentir seu perfume. Talvez ele pudesse estar pensando nela naquele momento.
Pegou o copo e observou, por uns segundos, o líquido vermelho escuro, como o
sangue que emanara dos lábios dele nessa manhã apavorante. Por quê? Afastou o
vinho da vista e se jogou no sofá; Chelli, que a ouvira chegar mais cedo, pulou
ao seu lado e por lá permaneceu quieto e consolador. Essa era sua atitude
sempre que alguma coisa estava ruim, era o consolador de Roxy, e isso provocava
lágrimas doloridas nela. Abraçou o cão com força e se deixou esvaziar das
amarguras em seu pelo sedoso. Como retribuição de sua confiança, Chelli lambeu
as lágrimas frias e salinas das bochechas dela, fazendo-a rir
involuntariamente. Ele sabia alegrá-la.
Sua cabeça latejava, seu estômago se revirava e sua
mente a perturbava com imagens abomináveis de um possível e indesejado futuro,
quem nem tão distante poderia estar. Ela queria parar de pensar naquilo, tomar
uma garrafa de whiskey que fosse, mas não queria mais pensar naquilo. Não
queria sequer imaginar aquelas possibilidades, que arrancavam pedaços imaginários
de carne, cuja dor era totalmente real. Rox precisava externar suas dores, mas
não podia conversar com nenhum de seus amigos e o assunto era sério demais pra
despejar em um bebum qualquer do Bloddy Bowels. Olhou ao redor. Seu apartamento
estava uma bagunça imensa; as almofadas estavam todas espalhadas, suas botas
ainda estavam jogadas atrás da porta, o violão de Anthonie jogado ao lado do sofá.
Roxy correu até ele, como não havia notado tamanho objeto? Abriu o zíper da
capa. O vilão negro estava lá dentro, junto com ele viera o perfume, o aroma
que a fazia palpitar e não enxergar nada. Como isso doía agora. Tirou o
instrumento, tocou nas cordas, sentindo-as firmes e ondulantes sob seus dedos
que nada daquilo sabia; ao coloca-lo ao seu lado, notou um papel dobrado no
fundo da capa. O papel continha algumas palavras escritas na caligrafia torta e
fina de Anthonie.
I
wanna talk about you
About how bad and good you do to me
You do more damages than heroine
More bad than be a heart broken
‘Cuz you already had it inside your tiny hands
I want love you without that pain
I want have you forever
Or until the death bring me
Please, stay with me, R
Apesar de estar incompleto não
foi preciso muito esforço pra notar a quem se referia o texto, e isso a chocou.
Seu coração pulava louco dentro do
peito, o ar saía de seus lábios rápido e desesperado. Levantou-se do sofá em um ímpeto e se atirou porta a fora.
PS.: Algumas pessoas sabem de uma certa história que estou escrevendo que, assim como as outras, me serve de fuga e de alívio. Um 'alguém' especial pra desabafar. Pois então, este trecho refere-se aos personagens da mesma. Não sei ainda se vai entrar na história, mas tem a vibe. ;)
Espero que gostem.
PS².: Me desculpem o 'poeminha' caótico, eu estava ouvindo TPR... A música do título é esta:
Espero que gostem.
PS².: Me desculpem o 'poeminha' caótico, eu estava ouvindo TPR... A música do título é esta:

