sobre jogar no hard desde sempre

Ser mulher sempre foi um desafio.
Independentemente da época da História, do período, da cultura. Da sociedade.
Dentre tantas outras dificuldades enfrentadas, como o não acesso aos estudos, trabalho e etc., que tiveram um certo avanço - ainda que não de todo satisfatório, o abuso sexual e a violência continuam tão expoentes quanto há anos e anos atrás. Não houve muito progresso nesse sentido, e nosso país figura entre um dos piores, em 7º lugar; segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República registrou-se, nos 10 primeiros meses de 2.015, 63.090 denúncias recebidas de violência contra a mulher, correspondendo a 1 denúncia a cada 7 minutos. E nós sabemos que muitas mulheres não fazem denúncia alguma, ou este número na realidade seria mais assustador ainda.
O abuso ou assédio pode se caracterizar de diversas formas. Aquela “inocente” cantada na rua pode constranger a mulher que a ouve de tal forma que a ponha em questionamento suas roupas, seus atos, seu comportamento. Por mais bobo que pareça ser o suposto “elogio”, se altera o jeito de ser da pessoa, se a faz sofrer uma dor moral, se a faz passar vergonha ou se sentir humilhada, é algo que deveria, por óbvio, deixar de ser praticado; inclusive isto é basicamente o conceito de dano moral, ora veja.
A questão primordial a ser levantada é a de por quê isso ainda ocorrer.
Provavelmente a resposta esteja na nossa própria sociedade.
E, continuando a “cantada” a existir como se natural fosse, indiretamente concordamos em perpetuar assédios sexuais, que são uma forma de abuso e violência. Violência esta que pode vir representada por um soco, sim, por um tapa, que são sua forma mais óbvia, mas também por um palavrão, por uma palavra grosseira, por um pré-julgamento discriminatório. A própria Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) traz em seu texto a presença da violência física, sexual e psicológica.
Quando se fala de violência contra a mulher logo pensamos em agressão física, violência doméstica, estupro, feminicídio, e isto não está errado; porém há condutas sociais que servem de base, de alicerce para que estas ações criminosas continuem ocorrendo, condutas estas recorrentes e de, inclusive, costume social. São os pequenos atos do dia a dia que fortalecem o machismo na sociedade, arraigado nos discursos populares, nas “cantadas” vexatórias, nos comentários dispensados entre amigos, na discriminação no âmbito do trabalho. Não é só culpa das “cantadas”, não. É toda uma sistemática de como a sociedade trata a mulher.
A violência contra a mulher é como uma uma linha gradativa em que os crimes hediondos (estupro, feminicídio) estão postos lá no final; para se chegar ao final, no entanto, é preciso percorrer um longo caminho de atos e condutas cotidianas que fortalecem a opressão e que diminuem por demasia a liberdade de todas as mulheres. Criticando suas roupas, seus modos, sua maquiagem, suas atitudes, se falam palavrão, se namoram ou não, sua orientação sexual, sua vida.
É a mudança de nossas condutas diárias que pode realmente fazer a diferença e enfraquecer o caminho que leva ao final daquela nossa linha imaginária de atos. Felizmente essa mudança está ao alcance de todos nós, porque permeiam nosso dia a dia; cada um de nós podemos ser responsáveis pela proteção dos direitos das mulheres, pela melhoria na qualidade de suas vidas, pela evolução da sociedade como um todo.
Ser mulher sempre foi um desafio.

Mas nunca nos foi dito que deveríamos vencê-lo sozinhas.

Ps.: Texto feito para a semana do Rotaract, a pedido de Nathan Delgado. :)

 

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