O calor anda me trazendo alucinações, mas pode ser que a garrafa de vinho que matei agora pouco também esteja envolvida. Who knows? Acontece que ando tendo umas visões nada agradáveis das coisas. E de suas consequências. Ou dos bloqueios. Paredes altas que não me deixam fazer certas coisas. Incompreensíveis no final. Mas vou pular essa parte agora. Ah, mas eu sempre faço isso, né? Maldita eu.
A janela aberta traz sons da vida lá fora. E cheiro de cigarro. Ah, não. Não posso desejá-lo de novo. Chega. Tomo um grande e quente gole de vinho para evitar respirar fundo, há muitas lembranças ali que eu não quero deixar chegar. Opa, eu acho que uma delas acaba de me tocar. Bem aqui no meio do peito. Bem suavemente, com seus dedos gelados e macios.
Estava cedo pra sair de casa naquela noite de sábado gélida e chuvosa. Provavelmente nem teria gente na rua, ou sequer abrigadas nos bares; era um dia muito ruim pra se estar fora de casa, mas ela estava me sufocando mais que o de costume. Eu não podia ficar naquele apartamento sozinha de qualquer modo.
Uma vez embaixo daquele céu sem estrelas eu sabia que devia voltar pra casa. Mas não foi o que eu fiz. Desci duas quadras até um barzinho oriental especializado em sakes. Uma escolha estranha talvez, mas o sake me chamava e eu não podia ignorá-lo.
Sentei-me próxima à parede, o lugar ao meu lado estava vazio quando pedi a primeira dose. O líquido veio naqueles copinhos engraçados que mais pareciam potinhos de servir doce; desceu em um gole deixando um rastro de queimação pelo meu esôfago. Sinalizei ao barman que me trouxesse outro, ou logo uma garrafa. Qualquer coisa que me ocupasse por umas horas e me deixasse longe de casa. Se bem que da minha casa de verdade eu estava muito mais que longe.
Entre o terceiro e quarto guinomi, notei um cara que misteriosamente ocupara o lugar antes vago ao meu lado; cabelos negros compridos até os cotovelos, nariz fino e olhos escuros como a porcelana onde estava meu sake. Não pude deixar de notá-lo, e pelo que percebi segundos depois, nem ele à mim.
- Oi. Você sempre toma sake puro assim?
- Ah, nem sempre. Hoje eu estava precisando de algo mais forte.
- Ou amargo, você quer dizer. Eu não consigo tomar assim, ainda mais quente.
- É que está frio lá fora. - que comentário mais idiota! Fingi que não tinha dito tal bobagem.
- Por sinal, sou Akira. Ian Akira.
- Sou Roxy. - era tudo que ele precisava saber.
Ele sorriu e tomou uns golinhos do drink colorido que tinha nas mãos. Parecia-me confortável e seguro.
- Você mora por aqui? Quer dizer, não estamos exatamente no centro da vida noturna da cidade…
- Moro por aqui sim. Trabalho logo ali na esquina da Barão. - talvez fosse muita informação pra um completo estranho, mas temer o quê desse rosto tão adorável?
- Ah, então você escreve? Foda.
- Bem, eu não vejo como isso na verdade. Pra mim é só um trabalho, escrever notícias não é o que quero. Escrevo de verdade quando escrevo pra mim mesma, quando me desfaço nas palavras que digito. - eu devia parecer claramente bêbada pra ele agora, mas era minha sobriedade falando. As coisas pra mim soavam diferentes. Sempre soavam.
- Interessante… bom, parece artístico. Isso é excitante. Eu só desenho, tenho alguns mangás publicados, mas isso é só passatempo; na verdade faço mecatrônica. - ele deu mais um gole enquanto dava de ombros com um sorriso pendendo no canto da boca. Por um momento quase me deixei hipnotizar.
- Poxa, desenhar já é foda, mas dois talentos já são demais!
- Hahaha, isso é o que você acha, na minha família as pessoas são exigentes demais e nada parece bom o bastante. - seus olhos de repente pareceram perder certo brilho, e ele suspirou.
- Não deixe que o coloquem pra baixo. Já passei muito por isso, na verdade ainda passo. Não acreditam que eu possa viver de textos, bem, talvez eu não possa mesmo, e sempre me lembram por ter abandonado a faculdade e os cursos que nunca tentei, mas o que eu posso fazer? Sou feliz assim.
Por alguns segundos imaginei ter ido longe demais, eu mal conhecia o cara e já estava me intrometendo em sua vida. Ele olhou, calado, profundamente em meus olhos. Seus dedos estavam nervosos e giravam o copo na mesa. Pisquei umas duas vezes e abaixei os olhos exatamente no momento em que ele tocou uma mecha dos meus cabelos; ergui meus olhos e encarei os seus negros e puxadinhos, ele tinha um rosto angelical demais para ter o azar de ter se encontrado comigo nesta noite.
O beijo veio inesperado, misturando o sabor amargo da minha boca com a sua adocicada. Deixei-me levar. Toquei seu rosto pela primeira vez, seu maxilar era forte e sem um fio de barba; por baixo das minhas mãos ele estremeceu. Nossos lábios se separaram e sorrimos bobos para o resto do bar que nos observava de modo acanhado. Bebi o resto de sake que sobrara na minha garrafa enquanto discutíamos sobre animes - em especial Dragon Ball, o meu favorito - e me senti meio tonta depois do último gole. Pisquei algumas vezes, dei o dinheiro ao barman e me apoiei no balcão para me levantar do banquinho quadrado.
- Acho que vou ter que te acompanhar até sua casa. - ele disse. - Ou até um taxi.
- Não preciso de taxi pra subir dois quarteirões. Estou bem; aguento uma garrafa de whiskey facilmente, é que sake não é algo que eu beba com frequência.
Ele riu.
- Isso é o que todos dizem.
- Mas pode me acompanhar até em casa se quiser.
Ele sorriu de novo. Colocou um braço por sobre meus ombros e seguiu o caminho assobiando uma música qualquer de anime, talvez Death Note, mas não tive certeza, só sabia que a conhecia de algum lugar. E era a coisa mais fofa que eu já tinha ouvido. Subimos para beber mais alguma coisa, o frio castigava terrivelmente lá fora. Sério, eu esperava que nevasse qualquer dia daqueles, mas não achava ser possível em meio a tantos prédios e carros, até a ideia parecia meio bizarra.
- Você agora pode me provar que é bom no whiskey assim como é no sake, - dei-lhe a garrafa de Jack - não me envergonhe.
- Tudo bem. - ele pegou a garrafa e a virou na boca, um pouco de bebida lhe escorreu pelo queixo, e aquilo de certo modo me provocou. Paixãozinha que dura só um momento. - Estou aprovado?
- Está sim.
O beijei e o sabor do whiskey me excitava ainda mais. Era como meu ponto fraco, assim como chiclete de hortelã, o ácido do limão ou cigarros mentolados. Deixei suas mãos escorregarem pela minha espinha, prendendo-me firme; passei os dedos pelo seu rosto, contornando-lhe as linhas do queixo. Ian segurava minha cintura com firmeza, prendi seus cabelos negros entre os dedos da minha mão esquerda, acariciando-lhe a nuca enquanto a direita abria devagar sua camisa azul listrada. Estava quente ali dentro, como se os sete graus lá fora fossem apenas números. O whiskey tombou no chão, assim como nossos corpos e, enquanto Mayer tocava baixinho ao fundo, deixei minha razão me abandonar por uns minutos.
Azar, ah, como o azar é aleatório. Ele nos persegue em cada esquina ou rua, e vez ou outra acaba nos pegando de jeito. Acordei e senti a poça de whiskey ao meu lado e uma puta dor de cabeça que latejava nas minhas têmporas. Ian não estava mais ali. Próxima à mesa do meu computador havia uma mensagem escrita em letra de fôrma torta. Acabei de vestir a blusa que eu havia deixado no sofá e peguei o papel amassado. Parecia que antes havia sido a nota fiscal de alguma coisa.
Li, e por uns momentos imaginei que aquela noite tivera sido apenas imaginação de uma mente com ressaca. Importava é que eu nem me lembrava mais o que me fizera sair pra rua sem rumo naquela noite, fugindo de algo sufocante e invisível, dentro da minha cabeça. O bilhete não falava nada com algum sentido, apenas um telefone e uns rabiscos feitos na tentativa de fazer a caneta pegar. Garoto estranho.
Não o vi mais, nem falei com ele. Por alguns dias de solidão considerei ligar e dizer alguma coisa estúpida, mas eu não pude. Não pude trazer mais esse cara à minha vida confusa e perturbada. Era mesmo um azar; e ele parecia um cara tão bom. Até bom demais pra mim. Bom demais para que eu o estragasse. Uma pena como, por breves momentos, realmente desejei fazer isso.
[escrito dia 22/10]

