Divagações, elucubrações, possibilidades remotas.
São tantas as coisas que me fazem refletir aqueles momentos de novo. Aquelas cenas que na época não dei qualquer valor; aqueles anos passados onde eu era feliz e não sabia. Como sempre.
Quando a gente é criança/adolescente, não vê a hora de crescer, virar 'adulto', ser independente… mas as coisas não acabam sendo tão belas como imaginamos; a vida não é aquela coisa bela que todos dizem ser. Ela é uma puta, certamente. Uma puta feia e com verrugas na cara e batom borrado nos dentes. Única coisa que podemos fazer é por diferentes óculos. Alguns têm o foco tão desalinhado que podem fazer essa distinta senhora parecer menos asquerosa e até gostosa; mas depende daquelas lentes tão difíceis de se encontrar. Das lentes cuja vida passamos procurando. E tentando esconder a feiúra da vista.
Não se trata de um discurso pseudo-moralista; se trata de um mundo onde eu não o tenho mais e isso dói. Agora dói. Depois de tanto tempo… dói.
Muito tempo com os óculos errados… ah, eu.
Eu podia jurar que nunca me arrependeria de colocar aquele par de lentes um dia. Ah, eu, a inocente; a sonhadora. Não podia eu ter percebido que esse mundo não é ideal? Na física e química as coisas costumam ser ideais durante o ensino médio, mas isso é a maior mentira de todos os tempos. O mundo é uma confusão desordenada de coisas não ideais. Desculpa, Platão, mas somos uma enorme bagunça. Aqui e com certeza no seu mundo ideal também. Não há nada ideal por aqui. Quem sabe em Saturno…?
Divago, porque não quero sentir realmente. Não posso mais. Penso nas ínfimas e remotas possibilidades que sequer considerei um dia. Uma resposta diferente e tudo poderia estar mudado, um gesto que ficou perdido no tempo e na minha memória. Será que eu a mudaria desta vez? Se soubesse que o bloco de gelo que pulsa meu sangue teria uma rachadurazinha bem no meio? Rachadurazinha bem 'inha'.
Não posso voltar no tempo - infelizmente o vira-tempo da Mione só existe nos livros - embora não me vejo fazendo nada de diferente. Ora, o que eu aprenderia? E aprender é o que desembaça os meus óculos. Aprender é bom, aprender nos monta, muitas vezes, aprender dói.
Ponderei o que tínhamos; fora um embrião frágil e pequeno, quente e instável, que acabou durando pouquíssimo tempo. Foi o início e o fim ao mesmo tempo, e comecei ambos. Mas não me arrependo. Essas palavras, afinal, não teriam de onde sair. E eu terminaria sufocada.
Pergunto-me porque sou assim. Por quê tenho esse podre dentro que me impede de fazer o que um dia no futuro possivelmente desejaria? Vou fazer de novo, de novo e de novo. Sou apenas humana e não posso prever minha vida, caso pudesse, certamente chutaria minha bunda pra fora de casa neste instante; me declararia indigna do meu próprio amor e me faria dormir na rua numa noite fria como esta.
Vou trocar de óculos; colocar aqueles que usei quando o vi pela primeira vez e quem sabe as coisas mudem um pouco. Só um pouquinho. Pra eu poder tê-lo uma vez mais e depois correr sem rumo.
Larguei a caneta na mesa. Apoiei a cabeça nas mãos, considerei as palavras. Nunca podia ver um pedaço qualquer de papel e uma tinta espalhados que logo preenchia com a minha letra pequena e torta. Era a minha sina. Desencostei a cadeira e chequei o celular. Nada. Esperar me deixava irritada.
Era bom preparar as caixas de calmantes então. Uma ligação de anos atrás só chegaria quando descobrissem um meio de romper o espaço-tempo. Suspirei.

