A brisa fria envolveu meu corpo quente num arrepio fatigante e uma memória súbita me chegou aos olhos.
Noite fria, janela aberta, vento cortante no rosto. Ele pairava em meus pensamentos, em todos. Eu pensava estar bastante errada e talvez estivesse mesmo. O vinho tinto me fitava do lado de fora da janela, perto das flores feias que ali cresciam e que me irritavam. Também, não fiz nada para tirá-las de lá; elas simplesmente me irritavam e isso era um bom motivo para mantê-las vivas. Abria o notebook e a única coisa que eu queria era escrever as bobagens que percorriam meu consciente, as dores que estavam adormecidas e que funcionavam como um vulcão irregular. Room on Fire era o álbum que manipulava meus dedos, digitando sem permissão o que eu mais queria expor; e que tempos depois, com a possessão da minha consciência de novo, eu apagava. Era estranho pra mim saber que ele estava há poucos metros de mim e que isso não me afetava, eu não o devia querer mais. Afinal, acabei não querendo de qualquer forma. Ou é isso que meu cérebro racional queria incutir em mim, como uma mentira que, por extensa repetição, se transforma em verdade. Eu não sabia.
Aquela rajada gelada que vinha da janela me fazia entrar novamente na real e com ela vinha a fumaça de cigarro que bailava com meus cabelos ao vento. Os caras do andar de baixo planejavam me matar. O cheiro da nicotina me fazia acordar, ainda mais, e eu me observava como uma boba. Respirava fundo, tomava um gole grande e frio de álcool e o quente descia pela garganta e aquecia a alma. Eu estava fadada à esse destino e não reclamava. Com o último texto da noite pronto, fechei o computador sem me dar ao trabalho de relê-lo; eu provavelmente me arrependeria e apagaria como sempre, e achava melhor deixar a surpresinha pro dia seguinte quando, sã de todos os erros, daria conta de como eu realmente via as coisas. E apagaria. Vivia melhor vendo o mundo com a camuflagem que desejasse, a realidade era dura ou indesejável demais, embora ela sempre sombreasse minhas ideias, fossem quais fossem.
Antes de desligar meu cérebro como havia feito com o computador, acendi um cigarro e fui me sentar na janela do apartamento. O vinho balançava na taça em minha mão, a fumaça adentrava meus pulmões, e meus pés balançavam lá embaixo; segura apenas por achar que estava, eu acabava perdendo mais umas horas de sono olhando as estrelas e os prédios ao redor. Tudo parecia bonito de noite, sem os cinzas, sem a poluição, sem as pessoas. Apenas a luz da lua, o álcool e minha imaginação bastante fértil. E lá vinha ele de novo. Com suas covinhas sorridentes, os lábios suaves e delicados, os cabelos revoltos; parecia que eu podia até ouvir sua voz nos ouvidos. Cochichos entre beijos.
Não. Não. Essa não podia ser eu.
Acabei acordando com o sol em minhas pernas, deitada em uma posição totalmente desconfortável no sofá. E haviam se passado duas horas desde o último gole de vinho! Eu estava me superando. Ou apenas me afundando. Maldição.
Lembranças chegam sempre nos momentos que nos façam remeter à quando vivemos aquilo pela última vez. Não deixarei de ter essa lembrança. Não deixei de reviver o momento quantas vezes ele me apareça. As brisas frias ainda me levam àquela noite.

