black hole



O colchão havia sido arrancado da cama pela fúria das minhas mãos nervosas. A raiva que esquentava meu rosto também movia minhas mãos em movimentos descontrolados e errantes; jogava tudo nas paredes e chão sem pensar duas vezes. Eu sentia muito ódio. E tinha certeza que havia algo de errado dentro da minha cabeça.
   Peguei a caixa de Rivotril que me fitava por cima da mesinha de cabeceira e coloquei um embaixo da língua. Em doses maiores do que o medico receitara, o ansiolítico se desfazia em meio à minha saliva e adentrava na mucosa da minha boca. Em poucos minutos já sentia o efeito chegando e segurando os pulsos agitados do meu coração. Minhas mãos caíram ao lado do meu corpo e eu respirei fundo. Não tinha muito que eu pudesse fazer a não ser esperar, e isso era o que eu mais odiava.
   Sentei no chão e as lágrimas fáceis vieram resfriar as bochechas histéricas. Eu não podia mais. Não conseguia mais. Tinha que deixar tudo ou morrer. O que fosse mais fácil, o que estivesse ao meu alcance o mais rápido possível. Eu, enfim, havia me tornado o que mais temia. Uma fraca. Aquela que se deixa ruir como uma parede velha e se despedaçando. Eu me odiei por tudo que desejava em meu íntimo. E piorava.
   As lambidas no rosto que recebi do meu menino não eram suficientes para estancar o mar de desespero e eu não me controlava. As mãos tremiam, os pés gelados estavam roxos, e as pernas vacilavam ao tentar andar. Era quase um cadáver. Quando eu havia comido alguma coisa mesmo? Nada descia, e o que eu conseguia empurrar goela abaixo acabava voltando minutos depois. Meu corpo havia decidido o que meu cérebro ainda tentava negar. Eu era um cadáver.
   Os dias se arrastavam em horas terríveis e demoradas, o tempo também estava contra mim, afinal. Sempre duvidara disso; e eu convalescia na cama, chão ou sofá, onde quer que eu tentasse me fazer distrair. O computador não me satisfazia mais, as bobagens da TV nunca conseguiram me segurar por mais que alguns minutos e nem assim eu conseguia; eu achava que já estava morta e não havia me dado conta disso. Nada mais fazia sentido na minha vida, nada mais me trazia um flash de esperança ou felicidade. Eu estava num buraco fundo demais pro meu corpo duro e inarticulável. Só queria fazer sumir a dor que corroia meus órgãos, deixando-os quase inúteis.
   Eu só queria sumir e não ter que sentir mais nada.

   Uma semana que durou uma eternidade, com os mesmos questionamentos rondando a minha cabeça. Eu não sabia o que fazer apesar de desejar ardentemente fazer o certo. Era impossível decidir. Uma questão que só cabia à mim, e que era absurdo de ser resolvida sozinha; eu precisava de ajuda. Rápido. Por mais que tentasse ver os lados positivos e negativos de tudo e tentar balancear, a coisa não pendia pra lado nenhum e eu pendia pro chão. O tempo passando, e eu piorando. Alguma coisa tinha que mudar. Logo.
   Era difícil imaginar que aquela imagem esquálida que me fitava do espelho era eu. As olheiras escuras estavam maiores que o de costume. As pálpebras, inchadas, doíam a cada piscadela; olhos vermelhos e ardendo de tanto chorar, de tanto sentir. Corpo desengonçado e anguloso. Era um corpo podre que havia esmaecido em uma semana. A mente certamente domina a matéria, a carne. O corpo é apenas massa de manobra.
   O telefone tocava constantemente e as vozes do outro lado me desmanchavam. Eu não conseguia me manter unida. Meu corpo estava se partindo. E a todo tempo precisava estar sob efeito dos calmantes para não pirar. Minha cabeça era minha inimiga, mostrando-me coisas que eu não poderia suportar ver com os olhos; mostrando-me que havia uma decisão a se tomar e que a resposta estava obscurecida pelo meu pequeno grande ego. Mas quanto à isso eu estava totalmente cega. E os óculos, longe.
   Os dias rastejavam às minhas costas, agarrados aos meus cabelos. Havia tortura no tempo. E a cada dia, bizarramente, eu piorava. 


   A salvação “em parte” chegou num fim de semana, quando me deram o ultimato com a resposta pronta e independente da minha decisão. Eu mesma não conseguia chegar à um acordo com minha maldita cabeça cheia de caraminholas. Mas nunca vou esquecer a leveza que senti naquele sábado. A sensação pesada que deixava minhas costas e sumia janela à fora, subindo no ar e contornando os topos dos prédios em rodopios escuros. Eu estava prestes a ser resgatada do buraco negro que havia me metido sozinha. Que minha mente traiçoeira havia me metido. A liberdade. A Liberdade.
   Naquele dia, consegui fazer um sorriso sair dos meus lábios e acolhi meu menino como um parceiro de todos os momentos. Afinal, ele não havia desistido de mim em nenhum deles. Mesmo quando eu mesma o havia feito. A vida parecia ter cor de novo, mesmo com as nebulosas que embaçavam a minha vista. E ainda embaçam. Algumas nuvens pesadas nunca nos deixam, pelo menos até serem dissipadas pelas resoluções do mundo. Espero por esse instante como se fosse o mais importante da minha vida. Mesmo que talvez não o seja. E que talvez nunca chegue.
   O estranho disso tudo é que aprendi. Aprendi coisas que não imaginava ser capaz; meus olhos se abriram, minha mente se libertou e as coisas pareceram menos sérias do que eu acreditava anteriormente. Seriedade é bom, mas em demasia pode te foder enormemente. E eu me vi me levando menos à sério; meu “eu podre”, meu ego, abaixou as orelhas e se encabulou num cantinho. Talvez fosse o meu maior inimigo, no final das contas. Ou minha maior sustentação. Não sei.

   Agora estou aqui. E acredito ser esta a decisão correta. Não consigo imaginar como eu ainda estaria caso houvesse ficado com a outra opção. E nem quero imaginar. Consegui reerguer meu corpo até a metade da envergadura; a coluna ereta vai aparecer daqui uns meses, acredito. Mas tudo mudou. E os novos ares não me parecem tão inodoros assim. Sair da zona de conforto pode parecer estranho, e principalmente, dar muito medo, mas prefiro pisar em ovos a não pisar em nada.
   Seguiremos com a dança que a minha mente propuser, com o movimento de sua cintura tortuosa e professoral. Eu não sei nada sobre ela, mas estou aqui para tentar entender. Escrever é o jeito que tenho de analisar essa maldita que me rege sem ao menos me deixar conhecê-la. Ditadora ou não, é minha e somos uma.

 

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