just a damned feeling

Nem sempre sei se posso encarar uma folha em branco com a cabeça cheia de milhares de questões. E algumas delas me levam à ele. Gostaria eu de estar livre agora. De poder seguir direto para os braços do próximo sem algo que me segure. Sem cordões pendentes presos às minhas pernas.
Respiro a noite em sua magnitude. As estrelas me lembram coisas. Quando eu era criança e queria ser astrônoma. Quando fugi da festa de mãos dadas com ele na primeira vez que o beijei. Faz-me lembrar noites que eu gostaria de esquecer, mas outras das quais sempre guardarei bem no fundo da minha memória.
Infelizmente em algumas delas, Anthonie pairará pra sempre.

Tentei afugentar a memória de seus cabelos loiros que cheiravam a tabaco e menta com um grande gole da gim tônica que eu segurava, mas não bebia. Senti a ardência na garganta. Como eu a amava. Mas a imagem dele ainda estava no meu cérebro, com seus cachos que balançavam por sobre o peito, por sobre a cicatriz horrível no esterno. Por que diabos eu não podia me livrar desse homem? Assim como de todos os outros? Come on, brain!
Peguei o celular umas duas ou três vezes considerando ligar pra ele. Seria fraqueza demais. Eu, Roxanne, a durona, não ia ceder e ligar. No entanto, daria tudo pra dormir mais uma vez naquele peito tão frágil e esquio. Dilemas sobre orgulho e ego grandes demais.
De repente percebi que Disturbed já tinha parado de tocar e Papa Roach gritava pelos quatro cantos do meu apartamento. Meu cachorro me olhava curioso, como se soubesse que eu estava bancando a idiota. Olhinhos castanhos que me mantinham presa à Terra. Que me consolavam por ser estúpida quase sempre e ouvir demais a razão. Pedia, às vezes, que fizesse mais como minha alter-ego. Porém nem sempre eu podia ceder. Essa era umas dessas vezes? Respirei fundo e enfiei a cabeça pra fora do portal da sacada.
As estrelas estava lá, um pequeno milagre vindo de um céu quase sempre totalmente nublado. Consegui identificar um planeta ou dois. Tive certeza que vi Marte. Respirei bem fundo e entornei mais um pouco do gim em minhas mãos agora quase que sem gelo algum.
- Chelli, o que diabos eu faço? - eu desejava que a tecnologia avançasse de tal modo que conseguissem inventar um dispositivo que traduzisse os pensamentos caninos em palavras que eu pudesse compreender. Em retorno ele apenas inclinou a cabeça para o lado e soltou um espirro. Era difícil demais para mim admitir que o queria mais do que queria a maioria dos homens com os quais eu comumente saía. Era extremamente difícil. Eu o tivera por perto muito tempo e ignorava. Suprimia, talvez. Psicanalistas, por favor, poderiam me dizer por quê eu fazia aquilo? Sempre. Provavelmente, meu analista diria, por que eu não queria admitir que podia amar. Que eu dificultava as coisas. E que eu só enxergaria isso quando fosse tarde demais, por que eu tinha uma infeliz vontade inconsciente de me fazer sofrer. E eu concordaria com ele.
Ah, a psicanálise.

So tell me now
if this ain't love then how do we get out?
because I don't know
that's when she said I don't hate you boy
I just want to save you while there's still something left to save
That's when I told her I love you girl
but I'm not the answer for the questions that you still have.


Man, essa playlist estava me matando.
Enquanto preparava o segundo copo da birita da noite resolvi que ligaria pra ele. Homem complicado. Homem do qual eu não me permitiria gostar. O homem errado. Para a mulher errada. Maybe it was to be this way.
Coloquei os limões no gelo e despejei o gim. Só quando bebi e senti o esôfago arder é que percebi que havia esquecido da água tônica. Maldição. O lado bom era que bêbada eu já estava, se me arrependesse de o ter chamado poderia culpar facilmente o álcool. Como na maioria das vezes, era isso mesmo o que eu fazia. Sem o mínimo de vergonha na cara.
Oh, well.

Trouxe o iPhone aos ouvidos e a linha do outro lado chamava desocupada. Droga, nem ao menos para estar ocupada e eu poder desistir de toda essa bobagem. Depois de chamar umas 5 vezes uma voz rouca grunhiu um “Alô”.
- Ah, oi! Anth, sou eu. Hehe. Será que você poderia passar aqui em casa? Só pra gente tomar uma cerveja ou um whiskey, sei lá.
- Bem, eu estava babando todo torto no sofá mesmo, isso não faria bem às minhas costas. - Olhei para o relógio da cozinha, 2h45. Oh, man. - É só o tempo de eu botar uma camisa limpa e já subo aí.
- Beleza, cara. Até.
- Falou, gata.


Ouvi mais umas 4 músicas do Korn e ele tocou o interfone. O segundo copo de gim já estava no fim.

- E aí, Rox.
- Anth, entra aí. Vou pegar umas cervejas aqui, espera um minutinho.
- Okay. Boa playlist que você tem aqui. - Disse ele mexendo no meu computador.
Apareci com as garrafas e dei o último gole no gim, mordiscando um pedacinho de limão que estava ali só pra quebrar o cheiro de perfume do drink. Coloquei o copo perto demais do meu Xbox; mais tarde eu me arrependeria disso. Ele ainda mexia no meu iTunes.
- Pode por o que você quiser aí. - Embora tivesse acabado de começar Man in the Box, do Alice, pedi que trocasse, não sei se seria uma boa música. Ela tinha poderes demais sobre meu corpo das quais eu não conseguia negar. E ele mudou. Para Artic Monkeys. O poder sobre meu corpo foi trocado apenas de uma voz pela outra. I was, in that moment, totally lost. And would only blame the musics. Não estava ficando nada fácil pra mim, Anth. E o pior de tudo é que ele provavelmente estava fazendo de propósito.
- Tá bom esse álbum aqui?
- É. Tá.
- Eu sei que você gosta. - O sorriso safado que estampou o seu rosto não pode ser expressado em palavras, mas tive vontade, ao mesmo tempo, de bater nele com muita força e de beijar aquele sorriso torto maldito.
- Desse jeito não vou poder poupá-lo, meu querido.
- Isso é uma ameaça?
- Sim.

Escorreguei pelo braço do sofá e me aproximei dele. Malditos cabelos loiros que encostaram no meu ombro assim que ele se inclinou pra frente. Maldito homem.
Afastei-me por um momento. Por uns 20 segundos, olhei para seu queixo fino, franzindo a testa.
E o beijei. Como se fosse a droga da primeira vez. E naquele momento decidi que guardaria apenas pra mim a loucura que eu sentia por aquele sujeito mais atrapalhado e encantador que tive o prazer de conhecer.



Roxy Giáconni

 

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